Vagas que valem um apartamento

Se você acha que gasta muito dinheiro para manter seu carro guardado numa garagem, você está certo. E se comparar o preço de um apartamento que tenha vaga com outro que não tenha vaga, ambos com o mesmo número de quartos, vai descobrir que a diferença pode significar bem mais do que muito dinheiro: pode chegar, simplesmente, ao valor de um ou mais imóveis. É o que revela levantamento feito pelo Sindicato da Habitação (Secovi-Rio) para o Morar Bem: essa diferença faz com que, por exemplo, um apartamento de três quartos com duas garagens no Leblon compre um apê de um quarto em Ipanema. Ou compre um de quatro quartos na Tijuca. Ou ainda três de três quartos no Méier. No caso do Leblon, considerou-se o valor médio de R$ 3,2 milhões para o apê com duas vagas e o de R$ 2 milhões para o que não tem garagem. Com o saldo, de R$ 1 milhão, equivalente a 35%, paga-se os imóveis dos exemplos acima. No geral, mostra a pesquisa, toda calculada a partir do custo médio do metro quadrado, a maior diferença entre a valorização de apartamentos por conta de uma vaga de garagem no Rio de Janeiro está em Botafogo (37,8%) e a menor, em Jacarepaguá (3,6%). Maurício Eiras, coordenador do departamento de pesquisa do Secovi-Rio, responsável pelo levantamento, explica que esta valorização é resultado, basicamente, de dois fatores. Um deles, as muitas construções antigas na Zona Sul, com poucas vagas por morador. Outro, a lei 12.607, sancionada no ano passado, que determina que as vagas de garagem só podem ser alugadas para moradores do prédio — a não ser que a convenção do condomínio permita locação a terceiros. — Isso dificulta se encontrar vagas — lembra Mesquita, acrescentando que essa falta de garagens interfere muito nas negociações. — Às vezes, a pessoa olha o apartamento de três quartos e pergunta: “só tem uma vaga?”. O presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis do Rio (Creci-RJ), Manoel Maia, avalia que a falta de vagas dificulta, mas não chega a impedir uma venda. Entretanto, ele acrescenta um terceiro fator que pesa na disputa por espaço: o tamanho dos carros. — Antes, os automóveis eram menores e, hoje, há casos em que são necessárias duas vagas para estacionar um carro de grande porte — diz. Para Rafael Duarte, sócio-diretor da Percepttiva, agência de marketing imobiliário, a falta de investimentos no transporte público favorece a cultura brasileira de usar carros, o que acaba interferindo no valor dos imóveis. — Há famílias em que se tem um automóvel para cada motorista, até porque nem sempre é fácil se locomover nas cidades, diferentemente de outros países — diz Duarte, lembrando que, na Europa são comuns imóveis sem garagem terem boa valorização por conta da qualidade do transporte ao redor. A diferença de preços fez com que a família da publicitária Deborah Melo decidisse procurar um apartamento em Botafogo ou Laranjeiras, sem garagem, ou na Tijuca, com garagem. Para ela, a maior facilidade de transporte nos dois bairros da Zona Sul pode compensar a falta de lugar para estacionar. — Nestes bairros, há melhor oferta de transportes alternativos e eu gostaria de usar cada vez menos o automóvel. Acho que vale a pena ter carro quando se tem filhos pequenos, que precisam ser levados para a escola, por exemplo, mas, caso contrário, não compensa ter carro em Botafogo — afirma Deborah, ressaltando que, além do preço maior a pagar pelo apartamento, há os gastos com o veículo. — Encarece muito. Dependendo do estilo de vida, pode valer mais ter um imóvel sem garagem e pegar táxi. A conta pode dar menos do que a diferença entre imóveis com e sem vagas. Fonte: Jornal O Globo - 10/11/2013