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Aluguel Surreal: na Zona Sul, menos de 2% das ofertas de locação ficam em R$ 2 mil

Após 12 anos morando num imóvel emprestado pelos pais, Mariana Pentagna foi à caça de um apê para chamar de seu. A ideia parecia simples. Alugar um quarto e sala, sem vaga, de preferência em Copacabana, e que não custasse mais de R$ 1.900. Missão quase impossível. Pesquisa feita pelo Sindicato da Habitação (Secovi-Rio), a pedido do Morar Bem, mostra que os imóveis para locação, na faixa de preço procurada por Mariana, são artigos raros na cidade, em especial na Zona Sul. No mês passado, por exemplo, havia apenas 58 imóveis anunciados por até R$ 2 mil nos bairros da área mais valorizada da cidade — ou 1,88% do total de 3.093 ofertas para locação por até R$ 10 mil em 20 bairros da cidade. E, ainda assim, as raridades estão concentradas entre Copacabana, Flamengo e Botafogo e com apenas um quarto. Se incluídos os principais bairros da Zona Norte, além de Centro, Barra, Jacarepaguá e Recreio, o número de imóveis nessa faixa chega a 561, ou 18,13% do total. Com isso, o valor médio do aluguel no Rio está em R$ 4.895. E chega a R$ 6.812 (ou seriam “$urreais”?), se considerada só a Zona Sul. Preços começam a se acomodar — Aluguel novo, de dois quartos, na Zona Sul, fica entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, se for por Laranjeiras e Botafogo. No Jardim Botânico e Lagoa, só se encontra locação acima de R$ 3 mil. E, no Leblon, a média de um dois-quartos chega a R$ 5 mil — destaca Edison Parente, vice-presidente Comercial da Renascença Imobiliária, lembrando que, para pagar esse aluguel, a família precisa ter uma renda de cerca de R$ 15 mil, já que, ensinam os economistas, gastos com moradia não devem ultrapassar 30% da receita da casa. Ou seja, quem pretende morar sozinho, como Mariana, precisa ganhar muito bem ou procurar apartamento em regiões menos caras da cidade. Foi o que ela fez: começou a ver as ofertas disponíveis também na Tijuca. — As pessoas acham que seus apartamentos valem milhões e ficam esperando um louco que pague — diz Mariana, que procura imóvel desde novembro. Para Leonardo Schneider, vice-presidente do Secovi-Rio, a situação já foi pior. Em 2011, o aluguel variava em torno de 2% ao mês, num efeito cascata causado pela forte valorização dos imóveis. Mas, desde o ano passado, o mercado de locação vem dando sinais de acomodação. É que enquanto em 2012 os aluguéis subiram 11,4%, em 2013, o aumento foi de 8,3% — ainda assim, acima da inflação oficial, de 5,91%. — Já se nota um ajuste. Em alguns bairros, como Lagoa, chegou a haver queda nos preços. Mas há perfis de imóveis que têm muita demanda e saem rapidamente — diz Schneider, citando como exemplo apartamentos de um e dois quartos em regiões como Tijuca, Botafogo e Copacabana. — São bairros de fácil acesso e locomoção e com comércio farto. Já Parente lembra que o preço na Zona Sul está diretamente ligado ao número limitado de ofertas na região: — Quem mora no Leblon e em Ipanema, alugando há anos o mesmo imóvel, não quer sair. E a região também tem muita coisa que fica fechada, por falta de interesse de seus proprietários em alugar. Além disso, como os reajustes anuais do aluguel não acompanharam a valorização do mercado, negociar o valor se tornou vantajoso tanto para o proprietário, que pode manter um inquilino que já conhece há tempos, quanto para o locatário, que vai continuar no imóvel pagando menos. Com isso, bairros como Ipanema e Leblon vão se tornando praticamente inacessíveis, como analisa Leonardo Schneider. — São os locais com o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro. Tornaram-se nichos. A um ponto que deixaram de ser um bom negócio até para os investidores. Quem quer ganhar dinheiro com aluguel vai preferir ter dois imóveis na Tijuca ou em Botafogo, que tem grande liquidez, preços mais acessíveis e uma rentabilidade mensal que pode chegar a 0,5% do valor do imóvel. No caso do Leblon, essa taxa será equivalente a 0,2%, o que é um rendimento considerado baixo — garante Schneider. Novos e em bom estado custam 20% mais Do outro lado do balcão, até inquilinos dispostos a gastar muitos (sur)reais sofrem para encontrar o que desejam. Há muitas ofertas de imóveis antigos, que, entretanto, quase não passam por manutenção e precisam de obras ou renovação. — Centro, Laranjeiras e Botafogo são bairros antigos, que têm muitos imóveis de 50, 60 anos. Você vê carpetes, azulejos antigos, canos de ferro, boxes de acrílico. São coisas inaceitáveis na Zona Sul. Fica até difícil de alugar porque o inquilino, no geral, não quer fazer obra. Quer se mudar logo, sem muito trabalho — destaca Edison Parente, da Renascença Imobiliária, explicando que, com isso, os imóveis já reformados ou em boas condições acabam tendo o aluguel valorizado em até 20%. E aí, os preços chegam aos patamares vistos no tabuleiro que circula a nossa capa. Todos os imóveis mostrados ali são anúncios reais publicados no portal Zap Imóveis na última semana e mostram que por até mil reais só é possível alugar conjugados e apartamentos pequenos no Centro e na Zona Norte. Ou seja, pessoas com salários de cerca de R$ 3 mil — o equivalente a quase quatro salários mínimos no Estado do Rio — só podem sonhar com a Zona Sul. Os pesquisados Os 20 bairros pesquisados pelo Secovi-RJ para a elaboração desta reportagem são Barra, Botafogo, Centro, Copacabana, Flamengo, Gávea, Grajaú, Humaitá, Ipanema, Jacarepaguá, Jardim Botânico, Lagoa, Laranjeiras, Leblon, Leme, Maracanã, Méier, Recreio, Tijuca e Vila Isabel. Os valores usados são os anunciados e, não, os contratados. Fonte: Jornal O Globo - 26/01/2014