Migração carioca

  Tendo em vista que nossa cidade de fato é maravilhosa e que seus cantos, recantos e entornos nos encantam, é perfeitamente compreensível que os cariocas, de raiz ou não, disputem com avidez os imóveis próximos das praias ou da Lagoa, com vista livre ou enquadrando alguma paisagem conhecida no mundo todo. Em muitos casos, as pessoas se mudam para imóveis iguais e até menores do que aqueles em que hoje vivem, apenas pelo prazer de morar em um "cartão- postal". Essa condição, bem típica do Rio, tem uma certa nuance subjetiva e, de fato, movimenta bastante o mercado. Porém, independentemente das oportunidades que surgem para dar um upgrade na dupla "vista e localização", existem razões mais, digamos, pragmáticas, que impulsionam as pessoas a se mudar Assim como as nossas vidas estão em constante mudança, a casa em que moramos e, especialmente, o número de quartos existentes no imóvel, acompanham a trajetória dos moradores. Por mais sedutora que seja a ideia de manter o quarto- comida- e- roupa lavada oferecidos sem restrições por pais - e principalmente mães - amorosos, é muito comum um jovem que inicia sua vida profissional sair literalmente da zona de conforto e iniciar a incrível aventura de morar sozinho, mesmo que seja dividindo o espaço com amigos. Muitas vezes, é a primeira mudança na sua vida, tomada de um clima de liberdade e independência. Mas sem exageros, pois se o apartamentinho do jovem puder ser perto da casa da mamãe querida, para ela de vez em quando dar aquela "mãosinha" na arrumação e na geladeira, tanto melhor. Quando eles saem em busca da liberdade e de alçar novos voos, geralmente conhecem as suas caras-metades. E é nesse momento que acontece o ciclo que tanto vivi ao longo de 22 anos de corretagem: jovens recém desabrochados se conhecem e buscam juntos o seu cantinho conjugado ou sala e quarto, contando às vezes com os pais, que chegam junto para dar aquela força. Já vi jovens que escolheram um conjugado bem charmoso de 30 metros quadrados e, quando o pai da noiva viu, logo disse para o corretor: "você não tem uma coisa maior?" Geralmente nesses momentos, os pais ajudam os filhos e, assim, segue-se o ciclo da vida imobiliária. Mas aí a família cresce. Vem um filho. Ou dois. E um cachorro. E brinquedos, roupas que não acabam mais, livros, bolas, bonecas, os livros do primeiro grau das crianças, que ficam guardados por anos, mesmo que elas já estejam prestando o Enem. E vamos em frente, adaptando a casa à vida: apartamentos de três suítes, depois outro de quatro quartos, duas suítes e alguma briga para ver quem fica com o banheiro privativo. Chega um cachorro maior e, com ele, a vontade de ter uma casa com quintal. Com a adolescência dos filhos, volta-se para um apartamento que seja mais próximo da escola e da natação. O tempo passa e, enfim, vem o momento do sossego. Prole crescida, o coitado do cachorro já falecido, nenhum motivo à vista para uma nova mudança. Mas eis que o primogênito se reúne com os pais para dizer que os ama muito, mas já está na hora de ele ter o seu próprio cantinho. Em pouco tempo, partem felizes também o segundo, o terceiro. E aquele apartamento tão ajustadinho de repente fica grande demais. É hora de mudar de novo. Em nossa longa experiência no mercado imobiliário, vivemos muitas histórias como essas. Muitos clientes compram um imóvel conosco e voltam várias vezes com a necessidade imperativa de mudar. No fim do ano de 2003, vivi uma experiência inusitada, ao presenciar a busca incansável de um casal, com filhos adolescentes, por uma casa. Buscamos por todos os bairros, eles estavam dispostos a sair do Humaitá, onde já viviam há anos, quando finalmente encontramos sua casa duplex, com garagem e quintal. Ela estava localizada na rua onde moravam, há poucos metros do pequeno apartamento em que viviam, no próprio bairro. Nosso sonho às vezes está na nossa janela, olhamos para ele todos os dias, mas não percebemos. E assim o mercado imobiliário carioca se aquece, reaquece e agradece, por sempre poder oferecer uma oportunidade para quem quer Morar Bem. Johnny Guedes é CEO da Nova Aliança Imóveis   Fonte: O Globo - 11/10/2015