Memória que vem das ruas

  Quando a Família Real portuguesa chegou ao Rio, em março de 1808, encontrou uma cidade à espera de desenvolvimento. A atualmente populosa Zona Norte era um complexo de fazendas concedidas pelo Império Português aos frades jesuítas. Com poucos balneários para chamar de seus, coube à região buscar na arquitetura a inspiração para construir algumas de suas principais belezas, que estão tombadas pelo município como patrimônio artístico e/ ou cultural. Curiosamente, boa parte dessas construções está no alto, para que todos possam ver, e chama atenção por realçar a paisagem. Uma delas é o Pavilhão Mourisco, em Manguinhos, que abriga a sede da Fiocruz e foi concluído em 1918. Com traços de inspiração árabe, a edificação reproduz parte do traçado do Castelo de Alhambra, na Espanha, como destaca o arquiteto Renato GamaRosa, do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da fundação. - Oswaldo Cruz construiu esse prédio para marcar sua gestão à frente da saúde pública. Na época, Manguinhos era visto como um fim de mundo, até porque ainda não havia a Avenida Brasil, aberta apenas em 1946. O palácio foi erguido no ponto mais alto do terreno, e a entrada hoje considerada principal não existia. Ele foi concebido para ter entrada pela Avenida dos Democráticos. Assim, a construção foi erguida com sua frente voltada para o mar - explica o pesquisador. No segundo andar, o prédio abriga o Museu da Vida, aberto à visitação de segunda a sexta-feira. Inaugurada em 1728, a Igreja de Nossa Senhora da Penha é o principal cartão-postal da Zona Norte. A igreja, situada no topo do Morro da Penha e alcançada depois que os fiéis vencem os 382 extenuantes degraus da escadaria que leva à parte mais alta do morro, tem um elo comum com o Pavilhão Mourisco: foi reformada por Luiz Moraes, por volta de 1900. - Ele participou da reforma, que incluiu a ornamentação das fachadas e a finalização das duas torres presentes na entrada principal do santuário - diz Gama-Rosa.   Fonte: O Globo - 28/02/2015