Da sua janela, uma vista de cartão-postal

  O vai e vem das ondas, o Pão de Açúcar, o Corcovado, as montanhas, a Lagoa e a Baía de Guanabara são, nesta ordem, as vistas que mais encarecem o valor de um imóvel no Rio de Janeiro. Conhecidos internacionalmente por sua beleza natural sitiada em meio ao caos urbano, estes pontos turísticos não só atraem milhares de turistas anualmente, como também são vistas disputadíssimas por quem quer residir na cidade maravilhosa. A diferença de preço entre um imóvel, com as mesmas características em um mesmo prédio, com e sem o visual é de em média 30%, segundo consultores do mercado. - O mar é a vista mais valorizada no Rio. É bonito, é agradável, mas acima de tudo é permanente. Este é o grande diferencial. É a certeza absoluta que nada será construído na frente. Em segundo, o que mais encarece é ter acesso às áreas verdes e montanhas. E por fim a Lagoa - aponta o diretor do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis no Rio (Creci-RJ), Laudimiro Cavalcanti. Com isso, os logradouros mais caros na cidade - e em alguns casos no país -, não à toa, se concentram em bairros da Zona Sul. Entre os destaques, estão, claro, a Avenida Delfim Moreira, no Leblon, a Avenida Vieira Souto, em Ipanema, assim como a praia do Flamengo e as Ruas Borges de Medeiros e Epitácio Pessoa, que contornam a Lagoa. Mas, afinal, quanto se paga por uma vista exclusiva do mar? Quando se trata de grande procura e pouca oferta de itens exclusivíssimos, o martelo pode ser batido em cifras milionárias. Entretanto, em geral, dados do Sindicato da Habitação do Rio (Secovi) mostram que enquanto o valor do metro quadrado no Leblon inteiro custa em média R$ 23.731, na Avenida Delfim Moreira é de R$ 36. 973. Em Copacabana, a diferença entre a média do bairro e a da Avenida Atlântica chega a R$ 5.821, o metro quadrado. Na região do Arpoador, a Rua Francisco Otaviano tem uma metragem em torno de R$ 22.980, e o entorno, de R$ 17.985.. VERDE VALORIZADO Maurício Eiras, coordenador estatístico do Secovi Rio, esclarece que no caso destas principais vias de Leblon e Ipanema há outros fatores que pesam no valor final, como a exclusividade, o status e a segurança na região. - É aquela rua, aquele bairro, aquela vista. Na nossa metodologia, nós analisamos a via, mas tem empreendimentos que são um por andar, sem vizinhos. E tem a questão da segurança também. São características que fazem alguns imóveis serem produtos únicos e aumentar a valorização. Desconsiderando estas avenidas que são praticamente marcas de luxo dentro do mercado imobiliário, o corretor especializado na Zona Sul, Darlan Carlos de Souza destaca ainda ruas onde há vista para o verde, como na Gávea e Jardim Botânico. Estas também são regiões disputadíssimas, afirma: - A vista, especialmente no Rio, influencia diretamente o preço do metro quadrado de um imóvel. Eu incluiria também a baía de Guanabara, as vistas verdes que se tem da Tijuca e Santa Teresa, Urca, Botafogo e Flamengo, que também têm visuais incríveis - pontua Souza, destacando ainda as ruas: Rainha Elizabeth e Assis Brasil, em Copacabana, Joana Angélica, em Ipanema, e Pacheco Leão e Inglês de Sousa, no Jardim Botânico, além da Rua Major Rubens Vaz, na Gávea. Cavalcanti acrescenta que há uma diferença na preferência entre estrangeiros e brasileiros, do Rio ou não. Segundo ele, quem vem de fora do país e compra um imóvel aqui prefere Copacabana, o bairro mais famoso internacionalmente. Outro fator que pesa bastante no valor é o fácil acesso a serviços e transporte, características desejadas principalmente por quem migra de outro estado. E como se sabe, na Zona Sul não há muito espaço físico, ou quase nenhum para crescer. Logo, cada pedacinho se torna disputadíssimo. Jorge Rucas, diretor nacional de negócios da João Fortes, explica que, ao buscar um terreno para construir, tanto a localização quanto a vista interferem no preço final. Para exemplificar, ele cita dois empreendimentos lançados recentemente em Niterói, em que a diferença entre os apartamentos com vista para a praia e o Rio e os de fundos podia chegar a 40%. - Os imóveis de fundo muitas vezes tem imagens bacanas como parques e montanhas, mas mesmo assim, o visual da praia é o mais almejado. Tanto que alguns empreendimentos tem apartamentos apenas de frente para a Baía de Guanabara, com o esboço do Rio ao fundo. A vista de dentro de um apartamento tem grande peso na formação do peso, pois nem todos as unidades de um prédio terão a mesma. É um algo a mais e restrito a poucos. Com isso, os preços ficam maiores - pontua. Os principais pontos turísticos do Rio estão concentrados na Zona Sul, o que faz com que esteja nesta região os imóveis mais caros pela influência da vista. Mas sabemos que a cidade tem tanto riquezas naturais quanto no que diz respeito à cultura. E mesmo fora deste eixo há diversas áreas de parques, montanhas e outros atrativos. Portanto, cada região tem seus atrativos na hora de comprar um imóvel. Para o corretor João Eduardo Leal Côrrea, se na área do Leblon e Ipanema o que pesa na composição do preço é a vista para o mar, na Zona Norte é comum a valorização por imóveis centrais, próximos a polos comerciais, oferta de serviços e facilidade na mobilidade. Outra diferença, aponta, é que na Zona Sul muitos moradores buscam áreas mais afastadas do tumulto, justamente o contrário do que acontece na região vizinha. - Na Zona Norte o que mais conta e encarece é estar no radar de pontos movimentados. Os imóveis próximos à estas principais vias podem chegar a até 20% a mais de valorização, considerando dois imóveis de mesma tipologia. Além disso, quanto mais central, maior a liquidez também. Segundo ele, garantir a vista livre nestes bairros é difícil, porém, ele afirma que vale conferir o entorno. Se tem um shopping perto, a probabilidade dele ser desfeito e ali se construir um prédio alto é muito pequena, quase nula, diz. O corretor Darlan Carlos Souza orienta que ao procurar um imóvel, o futuro morador deve avaliar o que está construído ao redor. Ele exemplifica com um caso em Copacabana, onde havia um imóvel comercial baixo que parecia ser muito difícil de fechar. Entretanto, as atividades foram encerradas, o local vendido e um prédio alto foi construído no local. - Ou seja, aquela vista livre que parecia eterna simplesmente sumiu. Tem que estar atento para isso - conta. Marlei Feliciano Júnior, sócio- diretor da Brasil Brokers Ética, acrescenta que em áreas como Tijuca e Méier, o visual pode ser uma preocupação pois justamente o que se evita é a vista para os morros. - Hoje, as comunidades têm Unidades de Polícia Pacificadora, o que, inclusive, valorizou muito os imóveis da região, mas as pessoas ainda têm medo de bala perdida, por exemplo. Existe esta preocupação - avalia. Para ele, a vista livre realmente valoriza e encarece. No Rio, o que se destaca mesmo são os pontos turísticos, porque não é só a beleza, mas estar próximo destes lugares é sinônimo de lazer, de qualidade de vida. Por isso, explica, também toda a orla é bem valorizada. As regiões com muito verde, como a Gávea, São Conrado e Barra também tem este apelo. - A cidade do Rio de Janeiro tem características bem próprias. Sua natureza é muito bela e também muito cobiçada. O sonho de todo mundo é ter uma casa própria. Qualquer brasileiro que puder comprar um segundo imóvel, escolheria o Rio, e se puder comprar com alguma vista, é para o mar - conclui Laudimiro Cavalcanti, do Creci-RJ.   Fonte: O Globo - 10/05/2015